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SUPERAGÜI: Rio dos Patos

– Jamile, vai chamá o vô!

Dona Alzira prepara café na térmica. O calendário marca o último dia de 2003. "O bijú já tá pronto. Avisa ele pra mim".

Dona Alzira

A menina sobe os degraus da casa e vai até a sala. “Vô, vem toma café. A vó tá chamando”, diz ela. Seu Julino está na janela da casa, acompanha o movimento quase inexistente na vila. De sua casa ele pode ver o Rio dos Patos serpenteando à direita da pequena comunidade. As casas são construídas em madeira, em elevações sobre o mangue. Seu Julino interrompe seus pensamentos.

– Já vou indo.

Para se chegar de barco à vila de Rio dos Patos é preciso subir o pequeno riacho que corta o mangue. O trecho só pode ser alcançado por embarcações maiores com maré alta, mas mesmo assim com muito cuidado para não encalhar. Na vazante só é possível subir o rio em canoa a remo.

Mesmo com todo esse isolamento, no último dia de 2003 o movimento na vila estava acima do normal. Canoas sobem e descem o estreito riacho. Nas férias, muitos aproveitam para visitar os parentes, como Jamile que vive em Guaraqueçaba e só nessa época pode passar uns dias com os avós.

Os três se sentam nos bancos baixos em volta do fogo-de-chão, quase de cócoras, bem ao modo indígena. “Renato disse que ia trazer uns amigos para visitar a gente véio”, diz Alzira a seu Julino. Ele não dá muita atenção, mas Jamile se interessa, com a curiosidade natural dos adolescentes. “O que eles vêm fazê aqui?”.



Renato Caiçara

– Conhecê, oras.
– Mas aqui?
– É. Renatinho disse pra deixa umas ostras pr’o almoço.

O velho esconde o interesse, mas a notícia da visita é bem vinda. Ele bem que gosta de um dedo de prosa. Depois do café, seu Julino retorna à janela e às suas divagações. “Ai, ai. Vai sê bom algum movimento, só para variar...”. E volta a sua preguiça, com o olhar perdido na paisagem.

A aparente fragilidade física não faz jus à força de vontade deste homem, que já fez de tudo nessa vida para criar os seus. Hoje, com 78 anos de idade, seu Julino é o patriarca dos Pereira.

Todos os demais membros da família são seus filhos, sobrinhos ou netos. Sempre alegre, o velho garante que neste mundo de Deus não há família tão bonita como a sua. E gosta de repetir:

– Eu sou Rei aqui do Rio dos Patos


***

Rio dos Patos, onde vive a família Pereira, é um dos lugarejos mais isolados no interior do Parque Nacional de Superagüi. As condições de vida são bastante semelhantes às encontradas pelos primeiros imigrantes suíços, quando chegaram à região na segunda metade do século XIX.

No vilarejo não há luz elétrica nem saneamento básico. As primeiras casas foram construídas no início dos anos 1930 pela família Pereira, que veio do Ariri. A mudança, de acordo com o patriarca Julino Manoel Pereira, foi necessária.

– Lá pra cima a terra não era boa.

Garantem que a propriedade onde agora vivem foi deixada como herança para dona Alzira Pereira Coelho pelo seu avô, o coronel Virgílio Domingos Afonso, descendente dos imigrantes da então Colônia de Superagüi.

– Aqui é tudo herança da minha mulher, por isso o Ibama não tira nóis, mas eles vive pinchando pra gente sai.

A vila não passa de um apanhado de cinco ou seis sítios. Algumas centenas de metros mata adentro estão as ruínas da fazenda do tal coronel. “Tem pino de tijolo lá na mata com mais de cinco metros de altura”, diz Julino, com os olhos esbugalhados, como se tivesse visto assombração.

Partindo da vila por uma trilha esguia na mata encontramos alguns vestígios de pedras empilhadas. Estão camufladas sob terra, limo e vegetação rasteira.

O vigor e a exuberância com que cresce a Mata Atlântica na Ilha de Superagüi se encarregou de apagar do mapa a maioria dos vestígios do que um dia foi a Colônia Suíça de Charles Perret-Gentil e William Michaud.

A fazenda do coronel Virgílio, segundo Alzira, chegou a ter uns duzentos escravos.

– Naquele tempo tinha uns negro. Mas era um que perturbava e ele já mandava matar.

Os olhos de Alzira ficam esbugalhados, dando-lhe um ar dramático. Ela e seu Julino acreditam piamente que estas matas que cercam a vila são povoadas pelas almas daqueles negros assassinados.

– São os Caduema. Às vezes leva uns bicho, gente até.

Michelle, dona Alzira e a neta Jamile

Pergunto como é a vida ali e ela descontrai. “Na época o serviço era essas coisas de mexer no mato, na terra. Se plantava arroz, feijão, mandioca, cará. Hoje vive tudo da pesca e ostra. Minha nora vai no mangue e tira cinco seis caixas de ostra.”

Na verdade, até a metade da década de 1990 as famílias ainda cultivavam arroz, milho, feijão e mandioca, que era beneficiada nas casas de farinha. Hoje a cultura está proibida, mas algumas comunidades ainda produzem mandioca e farinha à revelia dos fiscais do Ibama.

Em Rio dos Patos, porém, o movimento das rodas de farinha há tempos cessou. Os alimentos e itens básicos são comprados de comerciantes que percorrem essas vilas de difícil acesso em pequenas embarcações.

– Fruta vem tudo comprado. Só banana têmo aqui, mas porque plantâmo.

Também deixaram de existir a capela e o pequeno campo de futebol que havia no centro da comunidade e era chamado pelos moradores de “praça”. Lá ocorriam os campeonatos de futebol, brincadeiras e festas como a de Nossa Senhora do Carmo, Padroeira do lugar, celebrada até alguns anos atrás no dia 16 de julho.

Hoje, são poucas as famílias que residem permanentemente na comunidade de Rio dos Patos. Quem está em idade de trabalhar vai para Guaraqueçaba ou Paranaguá em busca de trabalho, saúde e educação, nessa ordem. Ficam para trás apenas os idosos e algumas crianças menores.

3 Comments:

At 8:18 AM, Blogger Silvana said...

Muito legal!

Estou louca para conhecer esse lugar. Superagüi é cheio de meandros.

E o livro, quando é que sai???

 
At 11:28 AM, Blogger Charles Steuck said...

que bacana caron,
altas fotos, belo trampo!
abraço,
charles

 
At 10:39 AM, Blogger Daniel Caron said...

Valeu Charles.

 

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